24 September 2011

Racismo à Portuguesa

Depois de passar uns aninhos a viver fora de Portugal, é cada vez mais interessante verificar o quão única é a atitude dos Portugueses em relação ao racismo. Não quer dizer que o racismo não exista em Portugal, apenas que a sua forma é tipicamente Portuguesa e como em tudo, com vantagens e defeitos. Veja-se a direita em Portugal. Não há um único partido abertamente anti-emigração. Não há um único político que sugira como Berlusconi ou Sarkozy que se corram com os ciganos, por exemplo. Veja-se a esquerda em Portugal: não há propriamente uma grande vontade de levantar a discussão sobre os direitos dos emigrantes, sobre a sua integração, sobre a necessidade de trazer mais gente que queira trabalhar. Não se fala disso, ou quando se o faz não se levanta o volume.

Não é de certeza por o assunto ser tabu. O povo fala destas coisas. O que se passa então?

Após ler "O lugar do morto", um fantástico livro de José Eduardo Agualusa, fiquei fascinado com o capítulo dedicado ao sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, em que este descreve uma (fictícia?) conversa com Salazar em que a discussão se centra na forma de distinguir o colonialismo Português dos restantes. Assim nasce o mito de que o colonialismo Português não seria violento e que maior prova disso existiria do que a equidade com que o Português espalhava a sementinha por onde passava. Ora isto é puro mito, certamente, seriamos tão maus ou piores que os outros, mas é um mito bem Português. Só em Portugal um ditador de direita preferiria um racismo disfarçado do que um racismo aberto. E apesar de tudo mais vale assim. Como diz o autor "A mim me parece preferível a existência de um mito benévolo (...) do que a defesa de estúpidos mitos racistas".

O autor chama-lhe "Racismo envergonhado". Talvez seja isso.