14 June 2013

E, de repente, no meio do Atacama...


Deserto do Atacama, praticamente no meio do nada, 2000 metros de altitude, 30ºC (ou era o que parecia), sol escaldante. No meio de uma excursão pelo deserto - sim, sim, que ninguém pense que neste fim-de-semana de pausa, apertado entre 2 semanas demoníacas, ia haver tempo para mochila, GPS, estudar mapas e trilhos. Não, tinha que ser assim - autocarro, gringos, uns quantos chilenos de Santiago, e pronto. Ah! E máquina fotográfico em punho, para tentar (parcamente) captar algumas das mais belas paisagens que já vi. Mas, literalmente, no meio do nada (ou quase, vá!).

E, de repente, no meio desse nada, "Achas que podemos pedir aquele senhor para nos tirar uma fotografia?". Assim, como o único som no meio do silêncio das línguas estrangeiras que me rodeavam. Virei-me. Um casal de meia idade, olhar entre a paisagem, a máquina fotográfica e a quem iam pedir a fotografia. Decidi que também os ia surpreender. "Se quiserem, posso tirar a foto". Ficaram boquiabertos.

Ele era português, ela, na realidade, chinesa (mas com um óptimo português). Viviam no Luxemburgo e estavam a fazer uma viagem (e que viagem!!) que tinha começado no Brasil e tinha continuado pela Patagónia argentina e chilena, Santiago e Atacama e que os ia conduzir ainda à Bolívia e Perú. Já não ouviam português com o nosso sotaque desde que tinham saído do Brasil. E ficámos à conversa. Afinal, o que é que dois portugueses fazem quando se encontram?

Para além dos temas habituais, um emergiu. A língua. O senhor era da minha opinião, que não valorizamos a força global da nossa língua. Que apesar de os brasileiros serem provavelmente o maior grupo turístico no Chile e Argentina, ainda era mais fácil encontrar indicações em francês do que na nossa língua (como acontecia no hotel em que estava, em San Pedro). Que nos esquecemos que somos 250 milhões no Mundo a falar a mesma língua, a 5ª mais falada do Mundo, e uma das poucas que é nativa em quatro continentes. Que é das poucas línguas globais - em dispersão continental, só o inglês é mais falado que o português. Que, por sermos flexíveis, nos tentamos sempre ajustar às outras línguas - e, não me levem a mal, eu acho que essa flexibilidade é uma boa qualidade, mas também penso que devíamos sempre primeiro fazer um pouco de finca-pé em sermos atendidos na nossa língua. Que prestamos demasiado atenção a se o sotaque ou a forma como está escrito está mais próximo do português europeu que do brasileiro - e, porra, para que é que isso importa se realmente nos conseguimos todos entender na mesma língua! (vá, pronto, com uns poucos mal-entendidos aqui e ali). Que atrás da língua e da cultura comum há oportunidades de negócios que nos chegam pela proximidade que é inata a quem se entende "de ouvido". Prestamos demasiada atenção aos nossos bairrismos e esquecemos o privilégio que é cruzar o Atlântico, meia África, o Índico e a Indonésia, e podermos falar e ouvir a nossa língua. Ali, perdido no meio do Atacama, acreditem que foi mesmo uma boa surpresa!


31 March 2013

E como Portugal é visto como um exemplo de sucesso no combate ao abuso de estupefacientes


Portugal tem sido apontado como um exemplo nos últimos anos, numa área (para muitos de nós) insuspeita. Mas a verdade é que, a (corajosa) política que Portugal decidiu seguir há cerca de 15 anos, para combater o abuso e tráfico de droga, teve resultados impressionantes, e é frequentemente apontada como um exemplo a seguir - nomeadamente, no Reino Unido, onde o debate tem sido frequente nos últimos tempos.

Não sei se se lembram, mas, há 20 anos, Portugal tinha um problema sério de consumo de drogas - nomeadamente drogas duras e complicadas como a heroína. Na Grande Lisboa, locais como o Casal Ventoso, as Marianas (Carcavelos) e outros, eram sinónimo de quase cenários de guerra, em que tóxico-dependentes desesperados se injectavam ao ar livre - e, apesar do tom dramático com que escrevi esta última frase, as imagens da época são uma prova factual deste facto. O abuso de drogas era um problema claro, com os números do tráfico e prisões relacionadas a subirem constantemente.

Foi nessa altura que se decidiu por uma abordagem completamente diferente ao problema. Em vez do progressivo endurecimento do combate (que não tinha tido resultado nos 20 anos anteriores), decidiu-se... descriminalizar! Exactamente! Descriminalizou-se a posse para consumo. Quem fosse apanhado com uma quantidade pequena de droga não era preso - era considerado um doente crónico que precisava de tratamento, e presente a uma comissão que determinava se deveria ser multado, condenado a serviço comunitário ou encaminhado para tratamento.

Apesar do receio da altura, os resultados foram francamente positivos. O consumo de marijuana (pelo menos uma vez na vida) caiu para 10% (muito abaixo de qualquer outro país ocidental), o de heroína para 1,8% e a utilização de drogas no secundário para 10.6%. Ao mesmo tempo, o número de infecções por VIH em utilizadores de estupefacientes foi também reduzido em 17% (recorde-se que se iniciou também a campanha de troca de seringas) e as mortes por utilização de drogas duras caiu para metade. 

É por estes resultados que Portugal é apontado internacionalmente como um exemplo a seguir. Porque desafiámos o dogma, literalmente, quebrámos o paradigma, passámos a distinguir entre traficantes e utilizadores. E, com isso, pusemos travão a um autêntico flagelo. Por isso, países como o Reino Unido (em que o Richard Branson frequentemente aponta Portugal como o exemplo a seguir), Noruega e Brasil olham frequentemente para o caso português, como um exemplo de inovação e bons resultados neste tema tão complicado.

28 January 2012

Euro cepticismo visto de Londres

Em Portugal poucos questionam a presença de Portugal na União Europeia, apesar dos anos do Euro terem sidos dos piores de sempre em termos de crescimento económico na história da nação. Em Inglaterra é justamente o contrário, são mais aqueles contra o projecto Europeu do que a favor.

Há quem ache que o fenómeno é recente, ou então que vem dos tempos da Senhora Thatcher. É por isso interessante recordar que foi Thatcher quem fez campanha pelo 'Sim' à União Europeia aquando do referendo de 1975 em que 67% dos Ingleses se revelaram a favor da continuidade do UK na EU, nessa altura eram os trabalhistas que eram contra por acharem a Europa 'demasiado capitalista'. Uma ironia realçada pelo subsequente histórico discurso do "I want my money back" de Thatcher em 1988.

Para quem quiser saber mais sobre as origens da turbulenta relação do UK com a Europa, o The Guardian tinha ontem um artigo impressionante pela forma como descreve 8500 anos de euro-cepticismo em poucos parágrafos. Vale a pena ler:

http://www.guardian.co.uk/world/2012/jan/26/britain-proud-home-euroscepticism


5 January 2012

Portugal Visto de Fora na TSF



Parece que o nosso conceito foi importado pela Rádio Notícias!

http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=918315&audio_id=893314

Numa altura em que mais de 100 mil Portugueses emigraram no último ano, quem sabe por vontade de acatarem a sugestão do primeiro-ministro, faz cada vez mais sentido que se criem conteúdos destes, as lições de quem está fora podem ser imensamente valiosas para quem decidiu ficar.

21 December 2011

Queridos senhores e senhoras que vão fazer greve amanhã:

eu compreendo que estejam zangados e façam greve. A vida não corre sempre de feição e não trabalhar um dia sabe bem e, na verdade, até se pode aproveitar para comprar presentes de Natal em falta. Também é bom mostrar quem é que manda aqui. Parar uma cidade no Natal tem sempre impacto.
Mas eu comprei o meu bilhete de avião em Julho. Há cinco meses que estou a planear ver a minha família. Há cinco meses ninguém me disse que ia haver uma greve.
O ano passado foi a neve e a falta de anticongelante. Não foi culpa de ninguém, pronto, faltou. É sempre difícil prever quando é que vai nevar mais. Por exemplo, até podia nevar em Agosto. Nevar em Dezembro é pouco comum, certo? Para quê ter reservas de anticongelante?
No ano anterior foi porque nevou muito e não havia máquinas para limpar a neve. Mas o ano passado já havia máquinas, mas não havia anticongelante. Eu nem sabia que era preciso anticongelante. Agora já sei.
Este ano quase não nevou. Mas há máquinas e há anticongelante. Não há é ninguém para trabalhar.
Tudo bem, meus queridos senhores e senhoras, eu respeito a vossa greve.
Como o ano passado respeitei a falta de anticongelante.
E no ano anterior a inesperada neve sem máquinas para a limpar em Dezembro.
O que eu gostava era também de me sentir respeitada. Gostava que pensassem nas famílias que estão fora o ano todo e que planeiam viajar com um ano de antecedência. Nos que vão dormir nos aeroportos e nas estações de comboio. Nos que juntaram dinheiro o ano todo para fazer uma viagem de Natal em família.
Queridos senhores e senhoras que vão fazer greve amanhã: se não se importarem eu preferia que fossem trabalhar. É que eu gostava mesmo, mesmo de ir para casa. Mesmo.

http://www.lesoir.be/actualite/belgique/2011-12-20/qui-fera-greve-jeudi-885079.php

10 December 2011

O dia em que a UE abandonou o UK


Uma das primeiras histórias que me contaram quando vim para Londres para me explicarem a relação do UK com a Europa foi a seguinte: "Há uns anos o Eurostar, o comboio que une Londres a Paris e Bruxelas, teve de parar indefinidamente devido a problemas técnicos no túnel da Mancha. As manchetes dos jornais britânicos no dia seguinte eram elucidativas: "A Europa perdeu o acesso ao UK!".
Hoje, depois de David Cameron ter tomado uma decisão histórica de contrariar os restantes 26 países da União Europeia ao rejeitar um novo tratado para proteger o seu sistema bancário, o The Independent tem a seguinte manchete: "The EU leaves Britain". O tablóide "The Sun" é mais eloquente e anuncia "Up Eurs". O Daily Express canta vitória e anuncia que a sua "cruzada" pela saída do UK da Europa está perto de sair vitoriosa.
Mas a situação é mais grave do que parece: no meio do seu triunfalismo há vozes que discordam, nomeadamente dos representantes dos próprios bancos que Cameron tentou salvar. O Financial Times não estava particularmente entusiasmado, até porque os economistas são capazes de olhar para além do curto prazo e prever que esta decisão pode ser a bola de neve que desencadeia uma avalanche de proporções épicas, podendo eventualmente culminar na saída do UK da União Europeia. Os jornais um pouco por toda a Europa parecem concordar:


Deixo para comentadores mais videntes do que eu para tentar decidir se o UK decidiu bem ou mal. Os ingleses protegem os seus interesses e a Europa não quer estar sempre à espera que os ingleses se decidam. Mas como Português (e Europeu) a morar em Londres preocupam-me as possíveis implicações e por isso vou tomar precauções, entre elas a de pedir um passaporte inglês para o meu filho "just in case". Preocupa-me também o futuro da economia inglesa se uma UE hostil começar a tomar decisões que a prejudiquem. Preocupa-me que a Inglaterra possa estar a entrar numa fase em que o seu povo se torna mais xenofóbico e hostil a estrangeiros. E fascina-me que os ingleses tenham preferido continuar a proteger os bancos quando foram estes os grandes responsáveis pela crise.
Mas acima de tudo como emigrante o meu grande problema é que se um dia me disserem a frase favorita dos xenófobos "volta para a tua terra" o país para onde teria de voltar está num estado miserável. Não seria fácil a escolha.

20 November 2011

Combatentes do Ultramar


A forma como os Antigos Combatentes da Guerra de Ultramar foram, e continuam a ser, tratados, continua a ser um triste retrato de Portugal. Note-se que não sou antigo combatente e nasci em 1968, pelo que, creio, ninguém me pode acusar de procurar vantagens com este assunto... A não ser o de sonhar com o respeito pelos filhos de Portugal e a decência para quem nos serviu e tudo deu.

Na verdade, considerando que esta Guerra, de 1961 a 1974, mobilizou cerca de um milhão de filhos, irmãos, maridos e pais de Portugal, que cerca de 9’000 perderam a vida a lutar por Portugal, que há um enorme número vivo a merecer reconhecimento e que há muitos, ainda, a sofrer as consequências de uma Guerra de Portugal, não posso deixar de pensar como estes homens (e mulheres) seriam tratados nos Estados Unidos (onde vivo), no Reino Unido ou em França (onde vivi). E Antigos Combatentes com deficiências permanentes (quer físicas ou psicológicas) contam-se mais de 15’000... Como não acarinhamos estes homens?


Monumento aos Combatentes de Ultramar, com os nomes dos cerca de 9000 soldados mortos na parede do fundo.

E, nem falo dos Portugueses Africanos que também serviram e que nem sequer entram para as estatísticas da Guerra do Ultramar como Portugueses... Homens e mulheres que serviram Portugal e que, por certo, ainda tiveram um fim violento por o terem feito (só na Guiné, estima-se que tenham sido assassinados sumariamente milhares de ex-combatentes - na ordem dos onze mil).



Uma das coisas mais limpas que existe nos Estados Unidos é o reconhecimento ao Antigo Combatente, que não é feito de forma belicista mas de forma respeitadora. As escolas visitam os monumentos, não para aprender as razões que levaram a lutar as guerras nem o poder dos Estados Unidos mas, para reconhecer quem se sacrificou. As escolas e as famílias visitam os monumentos para perceber o impacto nas comunidades e nas vidas destes soldados que, mais do que tudo, eram pessoas... Quando os escuteiros colocam, todos os anos, um ramo em cada campa de um Antigo Combatente, em todos os cemitérios do país, não se promove política mas, isso sim, promove-se um simples agradecimento. No mesmo dia, a famílias inteiras vão aos cemitérios e até fazem piqueniques nos relvados das campas, para estarem em família, com todos. As crianças aprendem que as guerras custaram e custam caro e que houve boa gente que se sacrificou por elas, mesmo antes de terem nascido. Como diria um Antigo Combatente que muito estimo e respeito - “Só assim se pode incutir nos mais novos o sentimento de que pertencem a uma nação, com as suas vitórias e as suas derrotas, os seus momentos de glória e os seus períodos de desânimo. [...] Não se pode compreender um país se não se conhecer o seu passado, com tudo o que teve de bom e de menos bom. E neste aspecto, apesar da sua história ser curta, a América dá lições ao mundo, como ficou bem patente no modo como fizeram a catarse da guerra do Vietnam.”





Em Portugal tal é impensável. Nas escolas tudo é ignorado ou “revisto”. No dia a dia, o Português nem quer saber - os nossos heróis nem sequer são de louvar e, muito menos, para agradecer pois, dá trabalho e tira os olhos do umbigo. Não temos campas dos nossos soldados de Ultramar para visitar no dia 1 de Novembro e lembrar (é que durante o Estado Novo deixavam-se os mortos em África, longe das famílias e dos olhos da população, tirando o direito de voltar ao soldado). Nem sequer um Código dos Inválidos, como o de 1929 pensado para os Combatentes da Primeira Grande Guerra, foi feito antes ou depois do 25 de Abril. Depois do 25 de Abril, falar do assunto garantia a classificação de “reacionário” e, durante estes anos todos, o “Joaquim”, que não dorme, e o “Rui”, que não anda, esconderam-se nos quartos ou nos hospitais e não foram protegidos. Tal como eles, mais de 15’000 homens só puderam contar com o amor da família que, numa realidade diferente, tinha dificuldade em compreender o que passaram. Por fim, nem falo do que os sucessivos governos fizeram para não dar aos Antigos Combatentes benesses que, para mim e para os países civilizados, são básicas. E, até o monumento nacional aos Antigos Combatentes do Ultramar, em Lisboa, que foi construído por oito associações, não teve, sequer, uma comissão de honra que envolvesse os órgãos de soberania. Tal, porque o Presidente da República da altura, Dr. Mário Soares, recusou fazer parte de tal “porque era contra a Guerra de Ultramar” (!!!)... Como se os Antigos Combatentes tivessem culpa da Guerra e, claro, não lhes sendo reconhecido o serviço prestado a Portugal.

Reconheço que há melhorias : há mais homenagens, monumentos, livros não políticos e programas de televisão (a RTP tem vindo a fazer várias séries com o Joaquim Furtado) que permitem que os mais novos saibam o que se passou e se lembre o Combatente per se. Todavia, só no ano passado os Antigos Combatentes puderam desfilar no 10 de Junho, em Faro, pela primeira vez (“só” esperaram 36 anos)... Enfim, não chega. Há que fazer um mea culpa generalizado pela forma como os Antigos Combatentes foram e são tratados. Seria óptimo o nosso Estado liderar tal esforço (dado que foi o maior interessado nos serviços prestados) mas, já aprendemos, nunca o vai fazer. Por isso, tem que ser a população a fazê-lo.

Este foi o meu último post, de sete, sobre os Antigos Combatentes. Acho que, mais do que os Governos Portugueses podem fazer por quem os serviu - pois nos últimos 100 anos os Governos Portugueses não cuidaram dos seus e de quem os serviu (espero ter demonstrado) – interessa o que nós, Portugueses, podem fazer para honrar o melhor do nosso País, que são os Antigos Combatentes.











Fotografias do blog Ultramar e da página Guerra Colonial Portuguesa 1961-1974.
Filme dos Antigos Combatentes no 10 de Junho de 2010:

18 November 2011

Clandestinos do SIEDM


De entre os combatentes, talvez os menos acarinhados, pelo próprio secretismo do que fazem, são os clandestinos dos serviços secretos de informação. Sabem, desde o dia em que se tornam operacionais, que se tudo correr bem, ninguém saberá o que fazem... Por isso, nem quando perdem a vida, podem esperar reconhecimento do país de uma forma pública. “Ok, got it” - é preciso proteger a identidade destes operacionais a bem do país para o qual trabalham e, também, para os proteger dado estarem secretamente integrados, muitas vezes com família e durante toda uma vida, em ambientes hostis. Há, deste modo, que respeitar a coragem destes agentes, que levam anos a construir e manter a rede de informações, a aceder às fontes etc etc... anos de sacrifício e risco...
Por isso, quando houve uma fuga de informações sobre Valerie Plame Wilson como operacional da CIA (ver Plame Affair ou CIA leak scandal), nos Estados Unidos, durante a presidência de George W. Bush, a CIA pediu uma investigação a tal crime e levantaram-se vozes horrorizadas por um operacional ter sido “queimado” em Washington. Neste caso, porém, e talvez fruto dos tempos modernos, há quem acuse o Justice Department de ter sido contaminado pelo poder executivo, de que faz parte, durante a investigação. É que, note-se, há alegações que a fuga foi do staff da Casa Branca com propósitos políticos. Estamos a falar de um único operacional e, mesmo que a investigação não tenha dado em grande coisa, tal fuga foi considerada como algo criminoso e de extrema importância.


CIA Memorial Wall (onde cada estrela representa um operacional morto).


Livro de honra da CIA (1950 - 2005)

Voltando aos nossos combatentes dos serviços de informações. Quando, durante o governo António Guterres, o ministro da defesa Veiga Simão, por razões obscuras, pede para ser feita uma lista com todos os clandestinos do antigo SIEDM (Serviço de Informações Estratégicas de Defesa e Militares), agora SIED, só posso pensar, no melhor dos casos, que ele era um negligente incompetente. Se assim não fosse, não pediria a lista ou demitia-se (se alguém lhe tivesse ordenado para a fazer). E o Director do SIEDM da altura devia ter recusado fazer tal, demitindo-se se necessário. Mesmo que tudo fosse uma purga, havia que proteger os combatentes de serem “queimados” (ou até mortos pelos serviços dos países em que operavam), respeitar activos do Estado, respeitar o estatuto de Combatente e proteger a natureza secreta da organização .
Pois bem, para quem não se lembra, a lista foi mesmo feita e entregue ao semanário O Independente, que a publicou, no dia 28 de Maio de 1999, com os nomes rasurados, cargos e países de operação. Sim, para além do que o ministro e o director fizeram, toda a máquina funcionou para a desgraça: Primeiro, o staff do ministro tinha a lista pelas fotocopiadoras para entregar, o que é incrível, aos 22 deputados da comissão parlamentar encarregada de investigar o SIEDM e o ministro da Defesa. Segundo, pelo menos um dos deputados entregou a lista ao semanário O Independente... Isto é pior - é crime... E, neste caso, uma lista de todos os operacionais...
A falta de respeito e leviandade com que se brincou com as vidas destes combatentes, é, para mim, esmagadora. Segundo, o crime realizado não tem descrição - basta pensar na perda total de capacidades (mesmo que pequenas), em que Portugal investiu - pois brincou-se publicamente com segredos do Estado. Este caso foi investigado até às últimas consequências e os culpados de crime presos, certo? Não, nada disso... o ministro demitiu-se e ficou-se tudo por isso mesmo...
Portugal faz mais do que se esquecer dos seus Combatentes - Portugal consegue mesmo atraiçoa-los publicamente, entre almoços nos passeios cor de rosa da capital.
Os nossos governantes são de brincadeira... Com o problema de que as vidas que afectam não serem de brincadeira...