1 September 2011

Sombra

E, então, eles vão-se embora. Costuma ser por volta do meio de Agosto – 15 ou assim. Vêem no fim de Julho e vão-se embora duas, três semanas depois. É certo como as andorinhas na Primavera – ou mais ainda, que isto com as alterações climáticas nunca se sabe.

Na hora da partida, no entanto, o que mais me impressiona sempre são os olhos. Começam a ficar assim, um ou dois dias antes. Como se uma grande sombra lhes pesasse nos olhos. Como se estivessem ansiosos que o tempo parasse mas pressentissem que tal pertence aos impossíveis. Como se soubessem que, por muito que queiram ficar, têm que ir. Como se tivessem toda uma Vida num lugar, e uma parte deles noutro. Uma parte que os puxa sempre. Um centro de gravidade longe. Que os puxa. Que, quando os agarra, por 15 dias que seja, não os quer deixar partir. Um centro de gravidade que, não esqueçamos, no fundo, são eles.

Aquela tristeza, não é mais que o preço a pagar por procurar uma vida melhor, outras oportunidades. É uma tristeza feita de felicidades e coisas alegres – Sol, mar azul a bater nas rochas ou a enrolar-se de mansinho na areia, uma língua difícil mas que é a nossa, um sobreiro, risos de amigos, almoços em família, cheiros a rosmaninho, branco e azul ou amarelo ou verde ou vermelho, granito no alto de montes, afectos, palavras de Mãe e olhares orgulhosos de Pai. É uma tristeza de quem as voltou a encontrar e agora não se consegue separar delas.

Mas, aquela sombra nos olhos, não é mais que amor. Amor à sua terra – que, no fundo, sempre foi de quem a amou.