20 June 2011

Portugueses pelo Mundo

Havia um programa da televisão espanhola chamado Madrileños por el Mundo (agora Españoles en el Mundo). Seria bom existir algo do género em Portugal e mostrar aos Portugueses que as cabeças pensantes erraram, muito, ao condenar à quase morte actividades económicas nossas... Não vou falar, por exemplo, da fortíssima frota de pesca espanhola, fortalecida aquando da entrada na UE, em contraposição à nossa. Ou do facto de as cabeças pensantes, na altura, irem buscar o Michael Porter para fazer um estudo do que Portugal “devia fazer”, sintoma de quem desconhece o próprio País... Mas, conto aqui a história curta de uma comunidade emigrante que fez o "impossível" (o normal da diáspora portuguesa).

Foi sob o comando de um português emigrante - João Rodrigues Cabrilho, de Requengos de Monsaraz, ao serviço de Espanha – que os primeiros europeus pisaram solo californiano, na baía de San Diego, em 1542. O primeiro colono português na Califórnia, de acordo com a lista de pioneiros de Bancroft, foi António José Rocha - tendo desertado do seu navio, foi autorizado a permanecer no território (na altura mexicano) dado ser católico, ferreiro e carpinteiro. Há registos de que, em 1815, ele vivia em Los Angeles, onde tinha uma oficina de ferreiro.

Em 1800, a ca
ça à baleia era uma actividade fortíssima na Califórnia. Ora, as tripulações dos baleeiros eram, sobretudo, recrutados de entre os açorianos. Chegou a haver 17 postos de caça ao longo da costa da Califórnia, entre 1851 e 1880, sendo que quase todos os homens nesta actividade eram açorianos. Half Moon Bay, perto de minha casa, ainda tem uma fortíssima comunidade portuguesa piscatória.

A corrida ao ouro trouxe
à Califórnia - de locais tão distantes como o Porto (onde foram distribuídos panfletos sobre esta terra prometida, em 1849 -, milhares com a febre do ouro e, também, comerciantes e agricultores, que Portugal tinha em abundância. Assim, São Leandro chegou a ser a "Capital Portuguesa do Ocidente", com portugueses a dominar o comércio marítimo, a pesca, a pecuária, a agricultura... Há registos de muitos portugueses carpinteiros, sapateiros, comerciantes, ferroviários, cozinheiros, ferreiros, mecânicos, para citar algumas profissões em São Leandro. Mas, foi na agricultura que os emigrantes portugueses tiveram um sucesso extraordinário – em Sacramento Valley, na Bay Area e em Castro Valley. Sobretudo os açorianos, que tinham um talento especial - há registos de açorianos que chegaram à Califórnia com a roupa do corpo e que se tornaram donos de muitas centenas de hectares de plantações. Igualmente, Jack London, no seu romance Valley of the Moon, fala sobre a criatividade do agricultor português - Billy e Saxon, quando passam pelo "Porchugeeze Headquarters" (São Leandro), discutem porque é que os portugueses tinham sucesso quando "os americanos" fracassavam.

Pouco antes do século XX, dado o aumento do valor da terra na Bay Area, mais urbana, a comunidade portuguesa, que continuava a crescer, começou a mudar-se para o Vale de São Joaquim, onde podia comprar grandes áreas de terra, mais barata. Introduziram a irrigação e alteraram, para sempre, o vale e a agricultura nos Estados Unidos. O historiador Kevin Starr refere o vale “as the most productive unnatural environment on Earth”. Não está mal para o “nosso” agricultor, que sempre foi considerado “pouco instruído”, pois não?

O Vale de São Joaquim tem, hoje, mais açorianos que os Açores e, na Califórnia, vivem quase meio milhão de portugueses. Ao contrário do que acontece em Portugal, a actividade económica, o direito ao sonho, a defesa da propriedade privada, não foi castrada aqui e, veja-se o resultado. Acho que os meus compatriotas devia ver MESMO o que conseguem fazer quando não são limitados pela “protecção” castrante, a droga viciante que destrói, que o Estado Português mantém e é, desde há muito.