21 October 2011

Monte Ramelau

No fim de semana passado fomos ao Ramelau.

O Ramelau (ou Tatamailau em Tétum) é a montanha mais alta de Timor e foi, durante o período colonial, a montanha mais alta de Portugal, com os seus 2963 metros.

Partimos no sábado pelas 10h, e deu logo para perceber que a viagem ia ser bastante demorada. As montanhas a sul de Dili são rasgadas por uma estrada muito má, degradada e sinuosa e não é um simples carro que a consegue ultrapassar. Não admira que quase metade do parque automóvel de Timor seja constituído por jeeps (do estado, da GNR, da policia timorense e da ONU).

Passado uma hora, apenas tínhamos feito 30 quilómetros e ainda estávamos a ver Dili lá em baixo. Durante o caminho, ia pensando como teriam sido os anos em que Xanana Gusmão liderou a resistência contra o regime Indonésio. Deu para imaginar quanto difícil foi a vida dos guerrilheiros naquele terreno extremamente acidentado. O calor e a humidade foram outro inimigo que a Fretilin também teve de combater.

Demorámos 8 horas a chegar a Hato Builico, uma pequena aldeia situada no sopé do Ramelau e a cerca de 100 quilómetros a sul de Dili. Pelo caminho passámos por Aileu, que se situa no coração das plantações de café em Timor e por Maobisse. O aroma perfumado dos pés de café em flor é incrível. Almoçámos na antiga casa do governador português em Maobisse, agora transformada em Pousada. Fica situada no cume de um monte, onde temos uma vista de 360º sobre um vale. A vista é estrondosa.

Hato Builico, é uma aldeia serrana bastante simpática. Essa foi uma das características que constatei pelas pequenas terras por onde fomos passando. Pequenas, simples, mas bastante organizadas e limpas. As crianças brincavam invariavelmente na berma da estrada, e sempre que passávamos com a janela do carro aberta, acenavam e sorriam, e ao mesmo tempo que diziam “boa tarde” estendiam a mão a pedir um dólar.

Pelas 19h30 tivemos uma refeição ligeira. Arroz, massa e feijão-verde acompanhado por ovos mexidos. Tudo era francamente mau e a minha salvação foram as duas sandwiches com queijo que fiz ao pequeno-almoço, já a pensar no que poderia acontecer mais tarde. Deitámo-nos cedo e acordámos no dia seguinte por volta das duas da manhã. Não dormi mais de 40 minutos. O frio, as melgas e o estrado de madeira da cama contribuíram para isso. A excitação para começar a subir a montanha, tratou do resto.

Iniciámos a subida por volta das 3 da manhã. Eramos 14 pessoas e dois guias. Um ia à frente e outro fechava o grupo. A lua estava quase cheia, pelo que a subida fez-se de uma forma tranquila sem que tivéssemos de recorrer, apesar da escuridão, ao auxílio de lanternas. Chegámos ao topo da montanha pouco passava das cinco da manhã. Estava bastante frio e o vento forte era cortante. Felizmente contámos com uma fogueira acesa pelos guias, que deu para aquecer as mãos enquanto esperávamos pelo nascer do sol. Eram seis da manhã quando os primeiros raios do sol cruzaram o horizonte a leste. Lorosae.

À medida que o sol ia subindo, lentamente, a sombra da montanha foi criando um efeito visual único. A névoa da manhã criou um holograma prefeito do Ramelau a poente.

Iniciámos a descida pouco depois, e foi já com algum calor e cansaço à mistura que regressámos a Hato Builico. Tomámos o pequeno-almoço na pousada e depois voltámos a Dili, ainda a tempo de almoçar perto do Hotel.

Foi já no hotel que me veio à memória os meus tempos de infância. O cheiro a fogueira e a madeira queimada na roupa, o cansaço físico da caminhada e a água castanha durante o duche, fizeram-me recordar meus tempos escuteiro. De quando chegava dos acampamentos e metia-me na banheira para um banho de emersão. Depois lembrei-me da subida que fiz na Serra da Lousã durante a noite, apenas com o retransmissor da PT como referência durante a noite…

Amanhã, finalmente, vou mergulhar…