31 October 2011

Jaco, um pequeno paraíso na terra

O fraco desenvolvimento de infraestruturas turísticas e rodoviárias é, em simultâneo, o principal handicap e vantagem com que nos deparamos quando se visita ou se trabalha em Timor. As condições fracas de alojamento têm a contrapartida de chamar poucos turistas o que deixa as paisagens ainda incrivelmente virgens e inexploradas. O ilheu de Jaco é, disso, exemplo.

Fica na ponta mais ocidental de Timor a cerca de 240 quilómetros de Dili, mas as más condições da estrada, faz com que sejam feitos em 6 horas. Está separado da ilha principal por um pequeno canal com pouco mais de 500 metros cruzado por correntes fortes, principalmente no meio da maré. O transporte é assegurado pelos barcos dos pescadores que vivem dessa atividade bem como dos peixes que pescam para vender aos turistas que ficam hospedados nos dois eco-resorts junto à praia; a viagem custa a cada um 6 dólares. Como é considerada sagrada, os Timorenses proíbem as pernoitas na ilha.

Saímos de Dili às 8 da manhã de sábado, carregados com garrafas de mergulho, almoço frio e roupa qb para o fim de semana, e depois de uma “escala técnica” na Pousada de Baucau para desentorpecimento das pernas e para o habitual café da praxe, chegámos ao nosso destino por volta das 14h30.

A estrada entre Baucau e Lautém é uma marginal de 56 quilómetros de praias totalmente desertas de águas quentes e cristalinas. Têm um único senão; quando a maré fica vazia, a areia branca é substituída por rochas o que impossibilita que sejam rentabilizadas para o turismo.

Os 8 Km finais, foram feitos em 30 minutos; arriscar-me-ia a dizer que não é qualquer jeep que consegue fazer aquele caminho de montanha tropical, com trilhos inclinados de terra e pedras soltas numa selva de coqueiros.

Quando chegámos à praia de Tutuala, a primeira vista foi esta…

A praia fica mesmo em frente ao eco-resort Valu Beach em Tutuala e tem o ilhéu de Jaco como cenário principal. O Valu Beach, mais eco que resort, é um conjunto de meia dúzia de palhotas feitas de bambu e folhas de palmeira. Não existe água doce e a eletricidade que foi utilizada é a pouca recolhida durante o dia por um painel solar que apenas serve para iluminar a palhota principal, o lobby do resort e “restaurante”.

Depois de uma tarde passada na praia a tomar banho, tirar fotografias e fazer um pouco de snorkeling, decidimos fazer o primeiro mergulho depois do pôr-do-sol. Apesar do luar estar ainda em quarto muito minguante, a transparência das águas ajudou a que o mergulho fosse fantástico; a tartaruga com mais de um metro de carapaça e os dois peixes balão, foram a “cereja no topo do bolo”.

Jantámos logo que acabou o mergulho. O peixe era fresquíssimo, pois tinha sido apanhado pelos pescadores um par de horas antes de ser assado. Foi acompanhado por arroz, legumes e temperado com aimanas, um picante timorense feito à base de malagueta, sumo de limão, alho e sal.

A noite foi, tal como no Ramelau, mal dormida. Além do calor e humidade tropicais, o não ter tomado banho de água doce, fez aumentar ainda mais a sensação de desconforto térmico. A humidade colava ao corpo. Uma rede mosquiteira era a única coisa que me separava da selva, mas os ruídos dos tokês, o animal símbolo de Timor, ou para os citadinos lisboetas, uma osga de proporções bíblicas, é que causavam o sentimento tipo “there is something big out there” … Acreditem, não dá mesmo para pregar o olho.

Na manhã seguinte, a alvorada foi cedo. Às 5h30 para apanhar ainda o raiar do sol e para iniciar o 2º mergulho no pico da maré baixa, onde as correntes, previsivelmente, pudessem ser mais baixas.

Depois de montado o equipamento e colocado novamente no jeep, fomos até ao local onde se apanhava o barco para o ilhéu, pois era daí que iriamos sair para o segundo mergulho.

À medida que nos aproximávamos da ilha, tomávamos mais consciência que por baixo de nós estava um aquário gigantesco de água transparente e corais cheios de vida.

Vestimos o fato e entramos dentro de água. Apesar de apanharmos alguma corrente, ainda deu para ver tubarões, peixes balão, peixes cirurgião, peixes borboletas, triggerfish de várias espécies e muitos outros peixes, muitos mesmo.

O resto da manhã foi para tomar banho e tirar mais umas fotografias. O dedo não se cansava e só parei de tirar quando a máquina ficou quase sem bateria. Queria guardar algumas para a viagem de regresso.

Pouco passava do meio-dia, quando, infelizmente, tivemos de regressar ao “continente”, pois ainda tínhamos seis intermináveis horas de viagem pela frente. Almoçamos uma refeição ligeira e partimos para a estrada. Fizemos novamente aqueles 8 quilómetros, a subir e agora com chuva. Tanto a paisagem, como o clima podem mudar repentinamente, mas a imponência e espetacularidade desta terra inexplorada, mantém-se…

Chegámos a Dili por volta das 20h00 de Domingo no meio de uma chuva tropical. Jantei depois de um banho morno e deitei-me. O cansaço era muito e o dia seguinte era dia de trabalho.

Ainda hei-de lá voltar…