9 November 2011

Emigrar... Que remédio?!

Perto do aniversário do Armistício da Grande Guerra, venho, mais uma vez, e com o olhar de quem vive nos Estados Unidos, bradar o meu espanto relativamente ao modo como são respeitados os nossos antigos combatentes.
Um caso surpreendente é o do português Aníbal Augusto Milhais (nascido em 1895). Este transmontano de Murça, agricultor de 1m e 55cm de altura, incorporou, como soldado raso, a Brigada de Trás os Montes da Segunda Divisão do Corpo Expedicionário Português (CEP). Ora, a Segunda Divisão do CEP, após ter sido abandonada meses seguidos na frente da Flandres da Primeira Grande Guerra, foi completamente esmagada pelos Alemães, em condições desiguais, durante a Batalha de La Lys (ver post Avenida Afonso Costa).

Neste batalha, em poucas horas, perderam-se cerca de 7’500 portugueses, entre mortos, feridos e prisioneiros, tendo-se sucedido inúmeros actos de heroísmo portugueses, quase todos anónimos. Porém, o soldado Milhais tornou-se conhecido e o maior herói e mais condecorado soldado de Portugal durante a Grande Guerra - sozinho, com a sua metralhadora Lewis, o soldado Milhais conseguiu cobrir a retirada dos camaradas portugueses e escoceses contra duas colunas alemãs, só parando quando esgota as munições. Foi tal o seu ímpeto e coragem que os Alemães pensavam estar a defrontar-se com toda uma unidade veterana. Na verdade, era um lavrador que lhes fazia frente. Já sem munições, o soldado Milhais consegue escapar e inicia a sua fuga para a rectaguarda. Apanhando as munições que podia, sozinho, ia fazendo fogo esporádico contra o inimigo e, ao fim de 4 dias de sobrevivência, salva um major-médico escocês de morrer afogado na lama. Foi com este oficial que chegou à rectaguarda. Não reportando o que fez, o major que foi salvo, bem como outros soldados que regressavam do campo de batalha, reportaram os feitos do humilde soldado. O comandante português, Major Ferreira do Amaral, saudou-o dizendo - "Tu és Milhais, mas vales Milhões!", ficando a alcunha do “Soldado Milhões”. Milhais, foi o único soldado raso português da Primeira Guerra a ser condecorado com a Ordem de Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito, a mais alta condecoração portuguesa.

Alguns militares condecorados da Batalha de La Lys, com o Soldado Milhais no meio, com colar
Passados alguns meses, o Soldado Milhões repete o feito, com a sua metralhadora, quando salvou todos os homens de uma unidade belga que retirava. Tal foi reportado, não pelo Milhais, mas pelo comando britânico e pelo belga. Foi-lhe, também, atribuída a Legião de Honra Francesa perante 15’000 soldados aliados.
Já de volta a Portugal, em 1919, casa-se, com Teresa de Jesus, com quem teve nove crianças. Porém, em tempo de profunda crise em Portugal, o nosso herói tinha grandes dificuldades em sustentar a família. Mas, o Governo Português, reconhecido pelos seus serviços, em 1924, “ajudou-o”...
E veja-se, o Governo altera o nome da aldeia de Milhais de “Valongo” para “Valongo de Milhais” e, o tímido Milhais, agora com o nome na aldeia e famoso, continuou com a família de barriga vazia... Por isso, em 1928, vê-se forçado a emigrar para o Brasil para tentar a sua sorte. Finalmente, aparece alguém decente - a comunidade emigrante no Brasil, que o recebe como herói e angaria fundos para o Milhais poder voltar a Portugal. Regressa no mesmo ano, retoma a agricultura com o dinheiro que trás e passa a receber uma pequena pensão do Estado, a título da Ordem de Torre e Espada (já que a População Portuguesa ficou indignada quando soube que o herói teve que emigrar para se sustentar). E, assim, o Soldado Milhões viveu na terra com o seu nome até 3 de Junho de 1970, dia em que morreu.
Enfim, em boa verdade, tal história não me deveria espantar. É somente uma gota de água no oceano do abandono, por governos portugueses, da altura e de hoje, dos seus soldados e veteranos. Pergunto‑me, até, se a homenagem focada só no soldado desconhecido em Portugal, que é bem merecida, não será a solução dos políticos de homenagear alguém que não os possa ameaçar...
Onde vivo não é assim... Tenham sido militares da Guerra Civil ou das longínquas frentes europeias, africanas, asiáticas, do Pacífico ou do Médio Oriente, se serviram, merecem todo o respeito. Não só do Governo mas, de uma forma pro-activa, de toda a comunidade. A única excepção foi durante a Guerra do Vietname mas, tal passou. O elogio e carinho pelos veteranos, aqui, existe, está de boa saúde e não é belicista mas só de agradecimento. E que outra coisa poder-se-ia fazer? Bem, em Portugal não se faz...
Encontrei um post muito interessante e com mais informação sobre o nosso herói nacional Aníbal Augusto Milhais aqui.