21 July 2013

"Fica tu pobre que eu emigrei"


Ao fim de anos de PEC's e crises atrás de crises, só uma coisa se pode dizer estar a correr razoavelmente bem em Portugal: as exportações. Mesmo num contexto de crise na Europa e abrandamento nos países em desenvolvimento as coisas têm corrido bastante bem, e quando o PIB Português voltar a crescer falo-à certamente por esta via. Há que dar os parabéns aos empresários e trabalhadores Portugueses que face à falta de procura interna, fizeram a coisa mais racional que podiam ter feito e viraram-se para fora, ajudados, como sublinha o Banco de Portugal no seu relatório de projecções económicas para 2013-13, por alguns ganhos de competitividade recentes (também conhecidos por "sacrifícios").

Este dinamismo parece ser bastante transversal, inclusive em alguns sectores mais tradicionais com as exportações alimentares a crescerem a duplo dígito e as exportações de vinho a baterem recordes, lideradas pela Sogrape e Symington (leia-se a propósito este excelente relatório sobre o setor vinícola do Diário Económico).

Mais recentemente as exportações têm sido empurradas também pela refinação petrolífera, ajudadas por um investimento gigantesco que a Galp fez em Sines.
Lembro-me de aprender na Faculdade que a última vez que Portugal teve uma balança externa positiva (exportações maiores que importações), foi durante a Segunda Guerra Mundial devido à venda de volfrâmio para o esforço de guerra (a ambas as partes envolvidas, diga-se de passagem). Uma balança externa negativa significa viver acima das possibilidades. Portugal anda a viver acima das possibilidades portanto há quase 70 anos... mas está prestes a ter a sua primeira balança externa positiva desde então: projecta-se um excedente de 3% para 2013. Está quase, quase, quase!

Se Portugal se voltar a pôr de pé, é este o caminho, embora como apontado por Ricardo Cabral no magnífico artigo sobre a dívida externa Portuguesa que emitiu na revista XXI, mesmo isto não vai chegar para resolver todos os problemas do País. Mas ajuda, e de que maneira.

Estas boas notícias sobre as exportações tornam ainda mais trágicas todas as mesquinhas manobras políticas por parte de todos os partidos nos últimos dois meses: numa altura em que se começa a vislumbrar a luz ao fundo do túnel, em que os agentes económicos precisam de estabilidade, em que importa mais que nunca que os países que importam os nossos produtos nos vejam como estando no bom caminho, os Partidos e o Presidente se envolvem em tragédias gregas e atrasam (mais uma vez) as reformas necessárias para continuar este admirável comportamento exportador (celeridade da justiça, confiança nas instituições, combate à corrupção, investimento em infra-estrutura para transporte de mercadorias, revisão IRC, etc, etc)

Não deitem tudo a perder. Foi isso mesmo que pensei quando li os comentários no artigo do Público. Como emigrante é mais fácil distanciar-me da política, é mais fácil olhar para os números e para as coisas como deveriam ser e não como os Partidos as pintam. E é mais fácil também dizer aos políticos Portugueses que ou se metem no bom caminho ou arriscam-se a ouvir ainda mais vezes "fica tu pobre que eu emigrei". No fundo, ou o País continua a exportar cada vez mais bens e serviços, ou acaba a exportar cada vez mais pessoas. Decidam.



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